A construção de uma comunidade que ultrapassou fronteiras, a Tomorrowland sobreviveu à pandemia e mostrou que pertencimento vai muito além da presença física.
O erro é achar que o pertencimento nasce quando alguém compra um ingresso.
Vem muito antes disso.
Ele começa quando alguém encontra uma história.
Quando encontra pessoas parecidas, que compartilham sonhos semelhantes e fazem com que se sinta reconhecido.
Quando percebe que existe um lugar onde seus valores fazem sentido e que, do outro lado do mundo, há milhares de pessoas que enxergam a vida sob uma perspectiva parecida.
É nesse momento que o pertencimento deixa de depender de um espaço físico e passa a existir dentro das pessoas.
Tomorrowland passou anos alimentando isso, fazendo com que milhares de pessoas fascinadas pelo seu universo, espalhadas pelo mundo todo, encontrassem um lugar com o qual existisse uma conexão forte, sentindo que finalmente encontraram um lugar para chamar de casa, mesmo sem se conhecerem pessoalmente.
Uma comunidade que existe além do festival
Milhares de People of Tomorrow nunca tiveram a oportunidade de viver o festival presencialmente.
Ainda assim, acompanham cada edição há anos, assistem às transmissões ao vivo, conhecem a história de cada tema e aguardam ansiosamente pelo próximo capítulo desse universo.
Esse é um dos aspectos mais interessantes construídos pela Tomorrowland.
Em vez de limitar a experiência aos poucos dias de festival, a marca criou diferentes pontos de conexão ao longo de todo o ano.
As histórias continuam.
Novos símbolos são apresentados.
Projetos são desenvolvidos.
E a comunidade permanece ativa mesmo quando a música já terminou.
O festival deixou de ser a única forma de viver esse universo.
Tornou-se uma das muitas maneiras de fazer parte dele.
A maior diferença entre uma comunidade e um evento
Eventos dependem de uma data para existir.
Comunidades continuam vivas todos os dias.
Elas conversam, criam amizades, compartilham experiências, recebem novos integrantes e mantêm uma história em constante construção.
Quando uma marca deixa de vender eventos e passa a construir identidade
Durante muito tempo, empresas e eventos concentraram seus esforços em vender produtos, serviços ou experiências.
Mas algumas marcas conseguiram dar um passo além.
Elas passaram a construir identidades.
Na Tomorrowland, esse movimento pode ser percebido na própria expressão People of Tomorrow.
Mais do que um slogan, ela representa uma forma de reunir pessoas de diferentes culturas, religiões, idiomas e países sob uma mesma filosofia.
A ideia de pertencimento deixa de depender da nacionalidade, da idade ou da frequência com que alguém participa do festival e passa a estar ligada aos valores que essa comunidade compartilha.
Essa talvez seja uma das maiores forças da Tomorrowland.
Em vez de falar apenas sobre música eletrônica, a marca comunica conceitos como união, respeito, criatividade, imaginação e conexão entre pessoas de diferentes partes do mundo.
Esses princípios aparecem repetidamente em suas histórias, campanhas, temas e projetos ao longo dos anos, criando uma identidade reconhecível muito além dos palcos.
Quando alguém diz:
“Eu sou um People of Tomorrow.”
Dificilmente está falando apenas de um ingresso ou de um fim de semana na Bélgica.
Está dizendo que encontrou um espaço onde sente que pertence, onde conhece pessoas com interesses semelhantes e onde compartilha uma visão de mundo que faz sentido para si.
É justamente essa identificação que faz com que a comunidade continue crescendo mesmo entre pessoas que nunca tiveram a oportunidade de viver o festival presencialmente.
No fim, grandes comunidades não se formam apenas porque as pessoas frequentam o mesmo lugar.
Elas se formam porque compartilham uma mesma história.
A pandemia mostrou que a comunidade era maior do que o festival
A maior prova de que a Tomorrowland havia deixado de ser apenas um festival aconteceu justamente quando realizar um festival se tornou impossível.
Em 2020, o mundo inteiro enfrentava um cenário marcado por isolamento, medo e incertezas.
A indústria do entretenimento foi uma das mais afetadas.
Shows foram cancelados.
Eventos adiados.
E milhões de pessoas perderam, de uma hora para outra, seus principais espaços de encontro.
A Tomorrowland também parou.
Mas, em vez de simplesmente interromper sua relação com o público até que tudo voltasse ao normal, decidiu encontrar novas formas de manter aquela comunidade unida e esperançosa.
Foi nesse contexto que nasceu Tomorrowland Around the World, uma experiência digital criada para que pessoas de diferentes países pudessem continuar compartilhando música, histórias e momentos, mesmo separadas por milhares de quilômetros.
Ao mesmo tempo, iniciativas como a One World Radio e outros conteúdos digitais continuaram alimentando a conexão entre a Tomorrowland e sua comunidade.
Naquele momento da história, ela representou algo diferente.
Um lembrete de que o sentimento de pertencimento não dependia exclusivamente de um espaço físico.
O festival havia parado.
A comunidade, não.
Talvez seja exatamente aí que esteja uma das maiores diferenças entre organizar um evento e construir um universo.
Quando o encontro presencial deixou de ser possível, permaneceram as histórias, os símbolos, as amizades, a expectativa pelo próximo capítulo e a certeza de que, mais cedo ou mais tarde, aquelas pessoas voltariam a se encontrar novamente.
E não foi a pandemia que criou esse sentimento de pertencimento.
Ela apenas revelou que ele já existia.
O que já vinha acontecendo de gerações em gerações conectadas não só pessoalmente, mas digitalmente também.
Sobre a autora
Ana Paula Franzin
Fundadora do projeto TomorrowSheLands.
TomorrowSheLands é um projeto dedicado a explorar a filosofia, a comunidade e o universo narrativo da Tomorrowland para além da música.
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