Antes de Pratigi: a história por trás da origem do Universo Paralello

Criado a partir de pequenas festas de trance no Centro-Oeste brasileiro, o festival que hoje reúne milhares de pessoas na Bahia começou com uma celebração de Ano-Novo, cerca de 700 participantes e divulgação feita apenas no boca a boca
Público reunido sob estrutura de bambu durante o festival Universo Paralello.

Quando o nome Universo Paralello aparece hoje, a primeira imagem costuma ser a da Praia de Pratigi, no litoral sul da Bahia. O festival se tornou conhecido pelas longas jornadas de música eletrônica, pelos palcos espalhados pela fazenda à beira-mar e pela quantidade de pessoas que, a cada edição, viajam para a Costa do Dendê durante o Réveillon.

Essa, porém, não é a história do começo.

O Universo Paralello nasceu no Centro-Oeste brasileiro, em um período no qual o psytrance ainda era uma cena pequena e as festas aconteciam longe dos grandes circuitos de entretenimento. Antes de Pratigi, antes da estrutura que transformou o festival em uma referência internacional, existiam encontros entre amigos, DJs e produtores que compartilhavam o interesse por uma vertente da música eletrônica que começava a ganhar espaço no Brasil.

Foi nesse ambiente que Juarez Petrillo, conhecido como DJ Swarup, começou a organizar as festas que dariam origem ao Universo Paralello.

E a história começa alguns anos antes da primeira edição oficial do festival.

O caminho de Juarez até a música eletrônica

Antes de se tornar um dos nomes ligados à consolidação do psytrance no Brasil, Juarez Petrillo tinha uma trajetória no rock.

Nos anos 1980, integrou a banda Primeira Pedra, enquanto também trabalhava com produção audiovisual, fotografia e videoclipes. Seu contato com a música eletrônica se intensificou na década seguinte, especialmente depois de viagens à Europa.

Em entrevista concedida ao Trance.com.br, Juarez contou que conheceu o trance durante uma viagem e que, posteriormente, passou a frequentar festas do gênero. A experiência ajudou a mudar sua relação com a música e contribuiu para sua aproximação com a cena que estava começando a se desenvolver no Brasil.

Naquele momento, o psytrance ainda estava longe de ocupar o espaço que conquistaria posteriormente.

A cena era formada principalmente por comunidades pequenas, festas independentes e encontros organizados de maneira informal. Grande parte da divulgação acontecia entre amigos e por meio de contatos pessoais.

Foi nesse contexto que surgiu o Universo Paralello.

1997: o nascimento da ideia

O próprio festival considera 1997 o início de sua história.

De acordo com a linha do tempo publicada atualmente pelo Universo Paralello, foi naquele ano que um grupo de amigos se reuniu no coração do Brasil para celebrar o Ano-Novo de uma maneira diferente, influenciado pela música eletrônica que chegava ao país. A organização considera esse encontro o nascimento do Universo Paralello.

O relato de Juarez ajuda a esclarecer o que aconteceu naquele período.

Em entrevista publicada pelo Trance.com.br, ele afirmou que, em 1997 e 1998, já eram realizadas pequenas festas privadas de trance usando o nome Universo Paralello. Ou seja, o nome e a ideia existiam antes de o projeto se transformar no festival que conhecemos hoje.

É por isso que 1997 aparece como o início da história, enquanto 2000 é considerado o ano da primeira edição do festival em seu formato oficial.

Essa diferença entre os dois momentos é importante.

O Universo Paralello não surgiu de repente como um grande festival. Primeiro veio a comunidade. Depois, as festas. Só então surgiu a ideia de transformar aquele encontro em um evento maior.

De onde veio o nome Universo Paralello?

A origem do nome também tem uma história própria.

Em depoimento posteriormente publicado pelo Jornal Opção, Ekanta Jake, então companheira de Juarez e uma das figuras pioneiras da cena trance brasileira, contou que o nome Universo Paralello já estava associado a um projeto de seu amigo Silvinho Romano.

Segundo o relato de Ekanta, Silvinho tinha uma fazenda em Goiás e pretendia criar ali um espaço cultural que reunisse diferentes manifestações artísticas. Depois de sua morte, Juarez teria continuado a utilizar o nome nas festas que organizava.

Essa versão é especialmente interessante porque mostra que o conceito por trás do nome não estava restrito à música eletrônica.

A ideia de criar um espaço cultural aparece desde os primeiros relatos sobre o projeto. Em vez de pensar apenas em uma pista de dança, havia a intenção de reunir outras formas de expressão em um mesmo ambiente.

É uma característica que, anos depois, se tornaria parte importante da identidade do festival.

A primeira edição do festival aconteceu em 2000

Foi somente em 2000 que o Universo Paralello ganhou o formato de festival.

Na virada daquele ano para 2001, a primeira edição aconteceu na Fazenda Água Fria, em Alto Paraíso de Goiás, na região da Chapada dos Veadeiros.

A escala era completamente diferente da atual.

Foram três dias de festa e aproximadamente 700 pessoas. Não havia campanha de divulgação, grandes patrocinadores ou uma operação de comunicação comparável à de um festival contemporâneo. Segundo Juarez, os participantes chegaram principalmente por meio do boca a boca.

Aquela primeira edição reuniu principalmente pessoas ligadas às cenas de Brasília e Goiânia. O grupo também recebeu participantes vindos de São Paulo, o que ajudou a aumentar consideravelmente o público.

Para quem olha a história do festival hoje, talvez seja esse o dado mais surpreendente: o evento que atualmente reúne milhares de pessoas começou com cerca de 700 participantes em uma fazenda no cerrado.

Não existia ainda a estrutura que viria a caracterizar o Universo Paralello. O festival estava, naquele momento, mais próximo de uma grande celebração entre pessoas que compartilhavam uma mesma cena musical.

A segunda edição colocou a produção à prova

O festival voltou no Réveillon seguinte.

A segunda edição, realizada na Fazenda Veredas, em Alto Paraíso, aconteceu na virada de 2001 para 2002 e ficou marcada pelas condições climáticas.

Relatos sobre o evento descrevem vários dias de chuva intensa. A produção precisou trabalhar durante o temporal para manter as estruturas funcionando e garantir a continuidade da festa.

A experiência acabou se tornando um dos primeiros grandes testes para um festival que ainda estava construindo sua identidade.

Mas as dificuldades não pararam por aí.

Quando realizar uma rave virou um problema

Na terceira edição, na virada de 2002 para 2003, o Universo Paralello foi realizado na Fazenda São João, em Teresina de Goiás.

Dessa vez, o principal obstáculo não veio do clima.

Segundo registros sobre a história do festival, a produção enfrentou dificuldades para conseguir autorizações para o evento, além de oposição de grupos locais. A edição acabou acontecendo depois de uma série de problemas burocráticos e pressão contrária à realização da festa.

O episódio precisa ser entendido dentro do contexto da época.

As raves ainda eram alvo de forte desconfiança no Brasil, especialmente por associações entre festas eletrônicas, drogas e comportamento considerado inadequado por setores mais conservadores. O crescimento da cena acontecia ao mesmo tempo em que produtores precisavam lidar com fiscalização, restrições e dificuldades para conseguir autorização para seus eventos.

Para o Universo Paralello, essa experiência teve uma consequência importante: ficou cada vez mais evidente que o festival precisava encontrar um lugar onde pudesse crescer com mais estabilidade.

Foi então que entrou em cena a Bahia.

Como Pratigi apareceu no caminho

A chegada à Praia de Pratigi é uma das histórias mais curiosas da trajetória do festival.

Depois das dificuldades enfrentadas em Goiás, a equipe começou a procurar outro local para realizar o evento.

Em entrevista à House Mag, Juarez contou que recebeu de uma amiga, Milena Sodré, a indicação de Boipeba. Ele decidiu viajar para conhecer a região acompanhado de Pedrão, do projeto Pedrão Labirinto, e Zumbi, que havia integrado sua antiga banda de rock.

Boipeba não acabou sendo o destino escolhido.

Durante a viagem, Juarez conheceu a região de Pratigi e encontrou uma área que considerou adequada para o festival.

Na época, a praia ainda estava muito distante da projeção turística que teria posteriormente. O isolamento, que poderia ser visto como uma dificuldade logística, acabou funcionando a favor da proposta do evento.

Pratigi oferecia algo que as experiências anteriores não tinham proporcionado na mesma combinação: uma grande área natural, acesso ao mar e distância suficiente dos centros urbanos para permitir que o festival funcionasse durante vários dias.

A primeira edição na região aconteceu na virada de 2003 para 2004.

O primeiro Universo Paralello na Bahia

A mudança para Pratigi marcou uma transformação definitiva.

O festival deixou o cerrado e passou a ocupar uma área na Costa do Dendê, no município de Ituberá.

A edição 2003/2004 recebeu cerca de 2 mil pessoas e durou aproximadamente uma semana, de acordo com registros históricos do festival.

A diferença em relação à primeira edição era significativa. Em poucos anos, o encontro que havia começado com algumas centenas de pessoas já precisava lidar com uma estrutura maior, mais artistas e um público vindo de diferentes partes do Brasil.

A própria localização passou a fazer parte da experiência.

Pratigi não era apenas o endereço do festival. A praia, a mata e o isolamento da região começaram a influenciar a maneira como o evento era percebido pelos participantes.

Foi também nesse período que o Universo Paralello começou a ampliar sua programação para além das pistas.

Quando o festival começou a ser mais do que uma festa

Uma das mudanças importantes aconteceu na edição 2004/2005, quando surgiu o Circulou, espaço dedicado a atividades culturais e diferentes manifestações artísticas.

A programação passou a incluir oficinas, dança, teatro, circo, música, palestras, debates e outras atividades.

Essa expansão ajuda a explicar por que o Universo Paralello passou a ser descrito não apenas como um festival de psytrance.

A música continuava sendo seu principal eixo, mas a experiência do público já envolvia outras atividades durante os dias de permanência no local.

O modelo também contribuiu para a formação de uma característica que acompanharia o festival em suas edições seguintes: as pessoas não iam apenas para assistir às apresentações. Elas permaneciam no local durante vários dias, acampavam, circulavam por diferentes espaços e participavam de atividades que aconteciam fora dos palcos.

O festival começava a funcionar como uma pequena comunidade temporária.

Pratigi não foi uma história sem interrupções

A relação com a praia não foi totalmente contínua.

Em 2009, por questões políticas, o Universo Paralello deixou temporariamente Pratigi e realizou sua edição na Praia dos Garcez. A própria organização registra essa mudança em sua linha do tempo como resultado de divergências políticas.

Depois desse período, o festival retornou definitivamente a Pratigi em 2012.

A partir daí, a praia se consolidou como o endereço que hoje está praticamente inseparável da identidade do Universo Paralello.

A família por trás do festival

A história do Universo Paralello também se mistura com a trajetória da família de Juarez Petrillo.

Juarez, conhecido como Swarup, e Ekanta foram nomes importantes na formação da cena de trance no Brasil e estiveram diretamente ligados aos primeiros anos do festival.

Os filhos do casal cresceram em contato com esse ambiente. Os irmãos gêmeos Alok e Bhaskar cresceram em meio às festas organizadas pelos pais e tiveram contato com a música eletrônica desde a infância. Aos 12 anos, começaram a tocar juntos e formaram o projeto Lógica, dando os primeiros passos profissionais ainda adolescentes. A relação com o festival veio naturalmente: os dois cresceram frequentando e, posteriormente, se apresentando no Universo Paralello. Em entrevista ao Correio Braziliense, Bhaskar contou que os irmãos tocaram no festival desde 2004.

A experiência dentro daquele ambiente acabou influenciando diretamente a formação musical dos dois. O próprio Bhaskar já descreveu o Universo Paralello como uma espécie de escola, especialmente pelo contato com artistas, públicos diferentes e outras formas de expressão cultural.

Com o passar dos anos, porém, os caminhos dos irmãos se distanciaram musicalmente.

Alok alcançou uma projeção internacional de escala excepcional, especialmente depois do sucesso de “Hear Me Now”, lançada em 2016 com Bruno Martini e Zeeba. A faixa levou o artista a um público global e consolidou uma carreira que posteriormente passou a transitar também pelo pop e por grandes festivais internacionais. Em 2025, Alok chegou à terceira posição do ranking anual da DJ Mag.

Bhaskar construiu uma trajetória diferente. Depois dos primeiros anos ao lado do irmão, passou por projetos como Lógica e Blue Rose e desenvolveu uma carreira solo ligada à música eletrônica. Seu trabalho transitou por diferentes vertentes, incluindo techno, house e Brazilian bass, enquanto manteve uma relação mais próxima com o circuito eletrônico.

A carreira também ultrapassou as fronteiras brasileiras. O perfil oficial de Bhaskar no Spotify registra apresentações em diferentes países e destaca produções como “Feeling So High”, colaboração com Sevenn que ganhou destaque como tema do Tomorrowland Brasil, além de “Fuego”, produzida com Alok. O artista também participou de grandes festivais brasileiros, como Lollapalooza e Rock in Rio.

Em entrevistas, Bhaskar fez questão de diferenciar seu trabalho do do irmão. Enquanto Alok passou a ocupar um espaço cada vez mais próximo do pop e de públicos mais amplos, Bhaskar optou por preservar uma identidade mais ligada à música eletrônica. “São estilos tão diferentes”, afirmou em entrevista ao Gshow, ao falar sobre as comparações entre os dois.

A história dos irmãos acrescenta outra camada à trajetória do Universo Paralello. O festival não foi apenas criado pelos pais de dois artistas que posteriormente ganharam projeção nacional e internacional. Ele também fez parte da formação musical de ambos, desde os primeiros contatos com os equipamentos até as primeiras apresentações profissionais.

Hoje, Alok e Bhaskar seguem carreiras distintas, mas carregam uma origem em comum: a mesma família, a mesma cena e um festival que acompanhou praticamente toda a formação dos dois como artistas.

De uma festa de 700 pessoas a um festival internacional

A transformação do Universo Paralello foi gradual.

A cada edição, o festival aumentou sua estrutura, ampliou sua programação e passou a atrair um público cada vez mais internacional.

Os primeiros anos foram marcados pelo psytrance e pela comunidade que se formava em torno dele. Com o tempo, novos estilos musicais, artistas e espaços passaram a integrar a programação.

O crescimento também ultrapassou as fronteiras brasileiras.

A marca passou a realizar eventos e edições licenciadas em outros países. Em 2023, por exemplo, uma edição realizada em Israel fazia parte desse processo de internacionalização. Segundo informações divulgadas na época, Juarez havia licenciado o uso da marca e do conceito para produtores locais, em vez de ser o responsável pela organização daquele evento.

Essa distinção é importante porque o Universo Paralello passou a existir como uma marca internacional sem deixar de ter sua principal edição associada a Pratigi.

Por que a origem importa?

A história do Universo Paralello poderia ser contada apenas como uma sequência de mudanças de endereço e crescimento de público.

Mas isso deixaria de fora justamente a parte mais interessante.

O festival surgiu em uma época em que a música eletrônica ainda ocupava um espaço muito menor no Brasil. Não nasceu de uma grande empresa de entretenimento nem começou com uma estrutura capaz de receber dezenas de milhares de pessoas.

Começou com uma comunidade pequena.

As primeiras festas foram organizadas no Centro-Oeste, em propriedades rurais, e divulgadas principalmente entre pessoas que já faziam parte daquela cena. A primeira edição oficial, em 2000, reuniu cerca de 700 pessoas durante três dias.

Nos anos seguintes, vieram as dificuldades com chuva, autorizações e oposição local. Depois veio a mudança para Pratigi, onde o festival encontrou as condições para crescer.

O restante da história foi construído edição após edição.

Hoje, o próprio Universo Paralello define 1997 como o início dessa trajetória e apresenta a edição de 2026/2027 como a 19ª edição, marcada para acontecer entre 27 de dezembro de 2026 e 4 de janeiro de 2027. A organização informa atualmente oito dias de festival, sete palcos, mais de mil artistas e mais de 200 horas de música.

São números muito distantes daqueles 700 participantes da primeira edição.

Mas existe uma continuidade entre os dois momentos.

A proposta de criar um lugar separado da rotina para celebrar a música eletrônica e a cultura que crescia ao redor dela estava presente desde as primeiras festas.

O que mudou foi a escala.

O pequeno encontro de amigos no cerrado se transformou em um dos festivais brasileiros mais conhecidos internacionalmente. Pratigi virou sua casa, a estrutura cresceu e o público se multiplicou.

Mas, para entender o Universo Paralello, talvez seja mais interessante começar justamente pelo ponto em que ele ainda não parecia destinado a se tornar tudo isso.

Antes de Pratigi, existia uma festa. Antes da multidão, existiam cerca de 700 pessoas. E antes do festival que o mundo conhece hoje, havia uma cena pequena tentando criar seu próprio espaço.

Continue explorando a cena eletrônica

Publicamos diariamente notícias, análises, coberturas e conteúdos exclusivos sobre a cena nacional e internacional.

📲 Instagram: https://www.instagram.com/go.techno
📲 Home: https://gotechno.com.br/

Recentes