Betriza: o techno como pesquisa, ofício e posição

DJ, produtora e cofundadora da RawTech Nation, Betriza revisita sua formação musical, explica os critérios que orientam seus sets e produções e discute os espaços ocupados por artistas brasileiros no techno.
Betriza em destaque na quarta edição do Ponto de Escuta da Go.Techno

A escuta ocupa um lugar central no trabalho de Betriza. Ela orienta a seleção de um set, as decisões tomadas em estúdio e a curadoria desenvolvida na RawTech Nation. São frentes diferentes, mas conduzidas pelo mesmo rigor: reconhecer o que uma música comunica e entender o contexto em que ela será apresentada.

Nesta edição do Ponto de Escuta, essas experiências se encontram em uma conversa sobre autoria, desenvolvimento artístico e os caminhos possíveis para o techno produzido no Brasil.

1. Você nasceu no Rio de Janeiro, começou sua trajetória no underground em 2018 e hoje está radicada em São Paulo. Antes de existir a Betriza que conhecemos na pista, qual foi a experiência que transformou a música eletrônica de interesse em caminho profissional?

Eu nasci no Rio de Janeiro e vivi lá até os 10 anos, praticamente ao lado de um baile funk. Então cresci muito próxima da música, do ritmo e de uma cultura de rua muito forte, mesmo sem poder frequentar.

Dos 10 aos 15 anos, morei em um internato adventista em Maringá. Lá, cantei em coral e toquei em fanfarra. Quando me mudei para Curitiba, tive diferentes experiências com música, principalmente ligadas ao rock. Toquei guitarra, baixo, compus e vivi a música de uma maneira mais orgânica.

E é curioso porque a primeira festa eletrônica que eu fui aconteceu quando eu já era muito mais velha. Não foi uma coisa de adolescência.

Em 2017, fui ao Tribaltech e assisti a um live da Blancah. Foi ali que alguma coisa mudou. Eu entendi que a música eletrônica poderia ter narrativa, atmosfera, tensão e construção, e, ao mesmo tempo, fazer você dançar e se libertar.

Em 2018, comecei a estudar mixagem e entrei de fato nesse caminho profissional.

A partir daí vieram muito estudo, prática, aprendizado, erros e acertos.

2. A mudança entre Rio e São Paulo também significa atravessar duas cenas com dinâmicas próprias. O que cada cidade deixou na artista que você se tornou e o que só apareceu na sua identidade depois dessa mudança?

Minha relação com cada lugar é muito diferente.

O Rio me deu uma relação muito visceral com o ritmo. Eu cresci perto de um baile funk, depois tive a experiência do coral, da fanfarra e, mais tarde, das bandas em Maringá e, depois, do rock em Curitiba. Então existe uma relação muito física com a música que vem de muito antes do techno.

Curitiba foi onde minha trajetória como DJ realmente começou. Foi ali que comecei a estudar, tocar, frequentar a cena e entender o que significava construir uma pista.

São Paulo trouxe escala, diversidade e também um nível diferente de exigência. Aqui tive contato com mais artistas, mais clubes, públicos diferentes e uma cena muito mais ampla.

Mas acho que o mais importante que apareceu em São Paulo foi uma compreensão maior de identidade. Comecei a perceber que não queria apenas tocar bem ou fazer um set tecnicamente correto. Queria entender o que fazia um set ser meu.

Foi aí que comecei a prestar ainda mais atenção em narrativa, seleção, dinâmica, tensão e, principalmente, na relação com a pista. Aprendi muito com os artistas que estavam aqui muito antes de mim, e a forma como eles me abraçaram e me ajudaram foi essencial para o meu crescimento.

3. Seus sets costumam ser descritos como densos, hipnóticos e intensos, mas sua pesquisa atravessa diferentes partes do techno. O que você reconhece hoje como a assinatura da Betriza e quais elementos não podem faltar para que um set realmente represente você?

Sim, hoje reconheço minha assinatura na construção com densidade, hipnose, groove, tensão e libertação. Posso transitar por diferentes vertentes do techno, mas preciso sentir que existe uma narrativa.

Na música em si, gosto de elementos muito bem definidos: um kick redondo, com bastante punch e impacto físico, mas sem ser agressivo; hats bem filtrados, synths que criem textura e uma dinâmica que permita ouvir cada elemento com clareza. Gosto de produções muito bem mixadas e masterizadas, em que tudo soa preciso, mas ao mesmo tempo confortável quase como uma massagem cerebral, mesmo quando a música é mais brutal.

Também gosto de buscar vocais marcantes, muitas vezes em produções antigas, e encontrar o momento certo para trazê-los para a pista. No set, procuro equilibrar esses elementos com a progressão de energia e a leitura da pista. Para mim, intensidade não é simplesmente tocar mais forte ou mais rápido; é saber construir tensão e saber quando liberar.

4. “We Used to Be Friends” marcou seu primeiro lançamento solo, enquanto “Versions of Happiness” apresentou um trabalho mais amplo e chegou ao topo das vendas da RawTech Nation no Beatport. O que mudou na sua forma de produzir entre esses dois momentos e qual dessas faixas melhor revela a produtora que você é hoje?

“We Used to Be Friends” tem um significado muito especial porque representa um dos meus primeiros passos como produtora e o momento em que comecei a entender que também queria construir minha identidade através da produção.

De lá para cá, mudou principalmente a minha capacidade de tomar decisões. Hoje tenho muito mais clareza sobre o que quero dizer com uma faixa e sobre o que faz uma produção ter identidade.

“Versions of Happiness” representa melhor a produtora que sou hoje porque existe ali uma visão mais madura de narrativa, textura e construção.

Eu não quero produzir simplesmente uma faixa que funcione em uma pista. Quero que exista alguma coisa minha ali: uma atmosfera, uma tensão, um groove, uma sensação. Esse é o maior desafio da produção: deixar sua marca sem ficar parecido com outros artistas.

5. Em 2023, você criou a RawTech Nation ao lado de Bllack Rose. Que ausência vocês perceberam na cena brasileira para decidir fundar o selo e o que precisa existir em um lançamento para que ele carregue a identidade da RawTech?

A RawTech Nation nasceu a partir de uma percepção que nós tínhamos da cena brasileira: existem muitos produtores fazendo techno que nós gostamos de ouvir, mas ainda havia pouco espaço e visibilidade para determinados artistas. Não por falta de talento, mas porque o mercado é muito competitivo e o acesso às grandes oportunidades de lançamento, principalmente fora do Brasil, nem sempre é simples.

Desde o início, quisemos olhar para isso de outra forma. É natural que um artista sonhe em lançar em grandes labels estrangeiras, mas existe também um caminho muito potente em construir localmente e fazer a cena brasileira crescer a partir daqui.

Também fomos entendendo, ao longo do caminho, o que precisa existir em um lançamento para que ele carregue a identidade da RawTech Nation. O primeiro ponto é claro: precisa ser techno, preferencialmente dialogando com a sonoridade que construímos dentro do selo. Mas isso, por si só, não basta. A música precisa ter identidade própria.

Quando recebemos demos, não estamos procurando apenas uma faixa boa. Procuramos entender quem é aquele artista, qual é a pesquisa por trás da produção e se existe um universo alinhado com a nossa linguagem. Para nós, é muito mais interessante encontrar um produtor que esteja realmente se debruçando sobre a música, estudando, experimentando e construindo um repertório, do que alguém que manda faixa apenas por lançar.

Por isso, eu particularmente prefiro receber um e-mail com dez faixas bem produzidas, que mostrem uma identidade consistente, do que receber apenas uma música isolada, sem história. Assim conseguimos enxergar muito melhor o artista, sua identidade e para onde sua pesquisa pode caminhar.

A curadoria da RawTech Nation passa justamente por esse processo: não queremos apenas escolher faixas para um catálogo. Queremos encontrar artistas com identidade, repertório e vontade de construir uma trajetória. Para nós, a RawTech também é sobre criar caminhos, fortalecer o que já existe aqui, dar visibilidade a novos nomes e mostrar que construir uma trajetória relevante também pode começar e crescer dentro do próprio país.

Existe ainda uma parte do nosso trabalho que vai além da música. Quando lançamos um EP, existe todo um processo criativo envolvido. Nosso designer ouve o EP inteiro e, a partir dessa experiência, desenvolve a identidade visual do lançamento. A capa não é pensada apenas como uma imagem para acompanhar a música, mas como uma extensão daquele trabalho.

E nós não paramos no digital. Planejamos nossos lançamentos em conjunto com os drops das camisetas da RTN Store, fazendo com que a identidade visual do EP também se materialize em uma peça física, produzida com alta qualidade e pensada para durar. A capa deixa de existir apenas na plataforma de música e passa a fazer parte da vida das pessoas.

Para o artista, isso cria uma outra camada de visibilidade e de conexão com o público. É uma forma de eternizar aquele lançamento e transformar a música em algo que pode continuar circulando mesmo depois do ciclo inicial de divulgação.

6. Estar à frente de uma gravadora também coloca você no lugar de ouvir, selecionar e acompanhar o trabalho de outros artistas. Como essa experiência de curadoria mudou sua própria relação com a produção e com as decisões que toma como artista?

Quando você começa a ouvir música também como A&R, desenvolve um ouvido diferente. Você começa a perceber rapidamente o que existe de particular em uma faixa, o que tem identidade e o que parece estar simplesmente seguindo uma tendência.

Isso também me tornou mais crítica comigo mesma e, por isso, tenho levado um pouco mais de tempo para soltar meu próximo álbum.

Uma música pode funcionar muito bem em uma pista e, ainda assim, não necessariamente ter uma identidade forte. E uma faixa pode não ser imediatamente óbvia, mas carregar alguma coisa muito especial.

A curadoria me ensinou a confiar mais na identidade e menos na necessidade de agradar imediatamente.

E também me fez perceber que desenvolvimento artístico é uma coisa de longo prazo. Você não está escolhendo apenas uma música; está ajudando a construir uma narrativa para um artista e para um catálogo.

7. A RawTech Nation surgiu com a proposta de fortalecer artistas brasileiros dentro do techno raw, deep, hypnotic e groovy. Na sua visão, o que ainda precisa mudar para que nomes nacionais sejam vistos como parte central da programação, e não apenas como suporte para atrações internacionais?

Eu acho que precisamos parar de pensar que o artista brasileiro precisa necessariamente ocupar o lugar de suporte.

Temos produtores e DJs com muita pesquisa, identidade e consistência. O que precisamos é criar mais espaço para que esses artistas desenvolvam suas próprias narrativas e sejam reconhecidos por aquilo que estão construindo.

Também acho importante que a própria cena brasileira acredite mais no que produz.

Isso não significa deixar de trazer artistas internacionais. Pelo contrário. O intercâmbio é fundamental para qualquer cena. Mas é importante que exista uma troca real, e não uma estrutura em que o artista internacional é sempre o centro e o brasileiro apenas acompanha.

A RawTech Nation participa disso da nossa maneira: criando catálogo, lançando artistas, construindo comunidade e mostrando que existe uma produção brasileira muito consistente dentro da nossa cena.

8. No dia 26 de setembro, você integra o line-up do CAOS ao lado de Ben Klock, Vermelho e SHEEFIT. O que essa noite representa dentro da sua trajetória e como você prepara um set para dividir a programação com um artista tão importante para a história recente do techno sem abrir mão da sua própria linguagem?

É um daqueles momentos que fazem você olhar para trás e perceber o quanto aconteceu desde que começou.

O Ben Klock faz parte de uma história muito importante do techno e, obviamente, da minha trajetória musical e das minhas referências como artista. Como DJ e produtora de techno, considero primordial conhecer o trabalho dele. Por isso, dividir o line-up com o Ben tem um significado muito especial para mim. É emocionante pensar que um artista cujo trabalho fez parte da minha formação musical estará na mesma noite em que eu vou ocupar uma pista.

E tem outro aspecto que torna essa noite ainda mais especial: dividir o line-up também com a Sheefit, uma artista que faz parte da história da RawTech Nation e que admiro muito. Acho muito bonito quando esses caminhos se encontram: referências que fizeram parte da minha formação, artistas com quem venho construindo uma história dentro do selo e uma pista como a CAOS reunindo tudo isso na mesma noite.

Meu processo de preparação começa pela leitura da programação, pela compreensão do espaço que tenho naquela noite e, principalmente, pelo público que vou encontrar. A partir disso, imagino as possibilidades do que pode acontecer e penso na narrativa que quero construir, considerando também o que potencialmente vou receber da pista.

Depois de tantos anos fazendo warm-ups e abrindo para artistas importantes, aprendi que essa preparação não significa tentar prever exatamente o que vai acontecer. Significa chegar com uma direção, entender o contexto em que estou inserida e estar preparada para responder ao que a pista me apresenta. Eu construo uma narrativa que é minha, mas deixo espaço para que ela se transforme durante o set.

9. Depois desse encontro no CAOS, quais são os próximos movimentos da Betriza? O que já pode ser contado sobre novos lançamentos, colaborações, apresentações ou projetos da RawTech Nation?

Tem bastante coisa acontecendo.

Na produção, continuo aprofundando minha pesquisa e trabalhando em novas produções. Tenho interesse em explorar cada vez mais essa relação entre groove, hipnose, tensão e construção de pista.

Nas apresentações, eu amo fazer warm-up e considero isso uma das coisas mais difíceis dentro da cultura de pista, mas também quero desenvolver cada vez mais sets em que eu tenha espaço para construir uma narrativa longa e completamente minha.

Na RawTech Nation, continuamos desenvolvendo nosso catálogo e trabalhando em novos lançamentos e projetos com artistas brasileiros.

Fizemos uma parceria recente com a Technolab em uma programação mensal que traz artistas para se apresentarem. Essa foi uma baita oportunidade que tive quando iniciei minha carreira e tenho certeza de que é uma ótima vitrine para artistas emergentes e também para os mais experientes.

O Technolab é transmitido ao vivo pelo YouTube, mas não é só isso: o artista também tem a experiência de tocar em um setup de última geração e receber um publico seleto. Esse tipo de parceria realmente agrega valor para toda a cena.

10. Quando você imagina a Betriza dos próximos anos, qual espaço ainda deseja ocupar e que parte da sua história ainda não começou a ser escrita?

Quero construir uma carreira em que Betriza seja reconhecida não apenas como DJ ou produtora, mas como uma artista com uma linguagem própria e uma contribuição real para a cultura do techno.

Quero tocar mais, produzir mais, lançar música que tenha longevidade, desenvolver a RawTech Nation e criar projetos que conectem diferentes partes desse universo.

Também quero continuar evoluindo como artista sem perder aquilo que me trouxe até aqui: a curiosidade, a pesquisa e a vontade de entender a música além da superfície.

Eu passei muitos anos aprendendo a construir uma pista antes de pensar em ocupar o centro dela. Hoje quero levar tudo o que aprendi nessa construção para espaços cada vez maiores, sem perder a capacidade de ouvir, sentir e contar uma história.

Acho que ainda existe uma parte enorme da minha trajetória que não começou.

E talvez seja justamente isso que mais me interessa agora.


CAOS apresenta Ben Klock

Data: 26 de setembro de 2026
Horário: a partir das 22h
Local: CAOS, Rua Luiz Otávio, 2995, Campinas, SP
Line-up: Ben Klock, Betriza, Vermelho e SHEEFIT


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