STARLANE SÃO PAULO: A ARQUITETURA DE UMA NOITE SEM FORMATO FIXO

Criado por brasileiros no leste de Londres, o Starlane encontrou em um casarão de Pinheiros o espaço para desenvolver uma experiência orientada pela música, pela convivência e pelo tempo de permanência
Fachada do Starlane São Paulo em casarão de Pinheiros

Às 18h, o piso de taco ainda pertence às mesas. A cozinha está em atividade, os primeiros coquetéis atravessam o balcão e o casarão preserva o ritmo de um bar no começo da noite. Horas depois, especialmente às sextas e aos sábados, o mesmo salão responde a outra dinâmica. O público se aproxima da cabine, o volume cresce e as mesas deixam de organizar o ambiente.

Essa transformação ajuda a compreender o Starlane São Paulo. A casa foi pensada para acompanhar diferentes disposições do público durante uma única visita. Pode receber quem chega para jantar, quem procura o bar e quem pretende permanecer até a pista assumir o salão.

O endereço na Avenida Rebouças reúne essas possibilidades sem dividir a experiência em setores isolados. Jardim, pátio, balcão, cozinha e cabine constroem um percurso contínuo pelo casarão.

UMA IDEIA DESENVOLVIDA EM LONDRES

O Starlane nasceu em 2018, no leste de Londres, por iniciativa dos brasileiros Bruno Cabral, Leandro Cabral e Gustavo Pacini.

A primeira unidade ocupava uma área anexa a um galpão com estúdios de gravação, artistas visuais e startups. O convívio com esse entorno aproximou o bar de uma comunidade criativa e ajudou a definir uma programação musical distante das escolhas mais previsíveis.

Quando chegou a São Paulo, em maio de 2025, o projeto ganhou sua primeira unidade fora do Reino Unido. A proposta londrina serviu como ponto de partida, mas o espaço brasileiro foi desenvolvido a partir da rotina cultural e noturna de São Paulo.

O casarão dos anos 1940 permitiu que essa adaptação ganhasse forma própria.

O CASARÃO DEFINE O RITMO DA EXPERIÊNCIA

Elementos originais, como o piso de taco, as vigas e as colunas aparentes, foram preservados. O projeto acrescentou painéis acústicos, caixas desenhadas para o local e uma cabine de concreto integrada ao salão.

A entrada pelo jardim cria uma área de transição em relação à Avenida Rebouças. Internamente, uma sala reservada e um pátio com arquibancada oferecem alternativas para quem deseja conversar ou se afastar momentaneamente da pista.

A arquitetura distribui o público e evita que toda a noite dependa do espaço diante do DJ. É possível circular pela casa, acompanhar o set de diferentes posições e escolher o nível de proximidade com o som.

Essa liberdade também interfere no tempo de permanência. O visitante não precisa esperar o principal nome da programação para encontrar a casa em funcionamento. O Starlane já está ativo desde a abertura da cozinha e do bar.

SOM PROJETADO PARA O ENDEREÇO

O sistema de áudio foi desenvolvido de acordo com as dimensões e características do imóvel. Painéis nas paredes e no teto controlam a resposta acústica de uma construção que originalmente não havia sido projetada para receber uma pista.

Durante a semana, soul, jazz, R&B, hip-hop e trip-hop acompanham uma ocupação mais voltada às mesas e ao balcão. Nos fins de semana, house, techno, garage e electro ganham espaço.

A cabine mantém uma relação próxima com o salão, favorecendo a leitura do ambiente pelo artista. Sets mais extensos também permitem que a apresentação acompanhe as mudanças da casa, em vez de funcionar como uma intervenção rápida dentro da programação.

Lisa Uhlendorff, uma das responsáveis pelo projeto, resumiu essa identidade em entrevista à Veja São Paulo: “A gente não é listening bar nem bar-balada. Somos isto: música, drinques e pizza.”

COZINHA E BAR PROLONGAM A NOITE

O cardápio assinado pelo chef Thiago Cerqueira tem como base pizzas individuais de fermentação natural, inspiradas no estilo napolitano. Os sabores receberam nomes de gêneros musicais.

A Hip Hop combina molho de tomate, fior di latte, calabresa artesanal e cebola roxa. A Bossa Nova leva mascarpone, crudo de atum e pistache. Já a Drum n’ Bass reúne salame picante, gorgonzola e mel.

A coquetelaria foi desenvolvida por Gunter Sarfert, com participação de Ingrid Shindo. A carta acompanha o caráter experimental da cozinha, como mostra o Pizzicato, preparado com vodca infusionada com massa de pizza, limão, jerez fino, manjericão e curaçau.

Esses elementos sustentam uma casa que começa a receber o público horas antes de assumir plenamente sua configuração de pista.

A CURADORIA COMO LINHA EDITORIAL

Lisa Uhlendorff, Rodolfo Tavares e Pedro Gariani conduzem a curadoria musical do Starlane São Paulo. A escolha privilegia artistas ligados a clubes, selos independentes e pesquisas de repertório consistentes.

A programação de outubro oferece um recorte dessa direção. Tiago Walter, Alci, John Dimas e Giammarco Orsini chegam de circuitos relacionados a Frankfurt, Zurique e Berlim, com trabalhos que percorrem diferentes vertentes do house e do techno.

Os nomes mudam a cada semana, mas o critério permanece reconhecível. A casa procura oferecer tempo, estrutura e liberdade para que cada artista desenvolva sua própria leitura do salão.

É essa coerência que começa a posicionar o Starlane dentro da vida noturna paulistana. O casarão da Rebouças foi transformado em um lugar no qual a experiência começa muito antes do primeiro movimento da pista e continua sendo construída enquanto o espaço muda de função.

SERVIÇO

Starlane São Paulo

Endereço: Avenida Rebouças, 3642, Pinheiros, São Paulo
Terças e quartas: das 18h à 0h
Quintas: das 18h à 1h
Sextas e sábados: das 18h às 2h
Instagram: @starlane.sp


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